Poesia Imperativa: Uma Resenha


Por Cinthia Torres

Em outubro de 1928, Virginia Woolf deu uma série de palestras em duas escolas para mulheres na Universidade de Cambridge: a Newnham College e a Girton College. Estas palestras foram organizadas em um ensaio publicado no ano seguinte sob o título de A Room of One's Own (no Brasil traduzido como Um teto todo seu). Neste ensaio, a escritora inglesa defende que as condições básicas para que uma mulher possa escrever englobam um espaço que seja apenas seu, em que possa trabalhar sem ser perturbada, tempo suficiente, e dinheiro para que não seja incomodada com questões que envolvam sua própria subsistência. Através desta reflexão, ela questiona, sobretudo, a escassez de poetisas no século XIX e no subsequente, quando a poesia deveria ser a primeira e óbvia escolha de um escritor independente do gênero biológico, uma vez que a poesia é a linguagem que fala, que se comunica mais facilmente com nossas subjetividades.

Colocada a questão, a resposta apresenta exatamente a ausência das condições básicas para que a mulher do século XIX pudesse escrever: um espaço privado. Utilizando-se do exemplo de Jane Austen, Woolf aponta as dificuldades de se escrever poesia sendo obrigada a confinar-se em uma sala de estar comunal com os demais membros da família ou ocasionais visitantes. O romance, portanto, seria um gênero mais fácil de ser escrito, requerendo uma concentração que, se interrompida, poderia ser retomada.

Para falarmos sobre o livro de Alana Regina, intitulado Poesia Imperativa, precisamos dar um salto temporal que nos traga ao século XXI onde, Virginia Woolf ficaria feliz em saber, a poesia tem crescido enquanto produção feminina. As conquistas das mulheres, que apesar do fluxo lento têm acontecido, se mostram nas páginas dos livros, nas estantes das bibliotecas e livrarias.


Poesia Imperativa é um livro de nossos dias. O lirismo, a voz que sente e que fala está permeada pelas reflexões que a todo o momento nos assaltam. O primeiro poema, Travessia, já insere o leitor em um mundo que muda constantemente e que ressignifica o papel da mulher em seus cativeiros, suas liberdades, seus choros, suas alegrias.

Em Estatística, como o próprio título nos guia, morte e vida seguem juntas, assim como a dureza e a leveza. Morre-se, luta-se, cala-se e grita-se. O mundo das vivências femininas em seus contrastes e contradições. O poema incisivo, direto, chama à luta, convite ao desassossego.

A voz lírica de Alana Regina também desliza pelo fazer poético, traçando paralelos com o processo da gestação. A poesia, o poema como produtos daquilo que se revolve inquieto no interior das subjetividades e que deve ser expelido ainda que seja desconfortável.

O amor que se desfaz, que se perde, mas que deixa resquícios; o amor que se encontra, sensual, intenso, poderoso são temas em Ressentimento e Deus nu. A memória e o material do qual ela é feita, a saudade e os próprios desencontros interiores se transformam em Poesia Imperativa, e criam uma colcha de retalhos onde cada trecho, cada pedaço adicionado, se harmoniza perfeitamente com o todo.

Em um momento político como este em que vivemos, a poesia é uma das vozes possíveis no encaminhamento das discussões, afinal, ela toca o que há de mais profundo, mais visceral em nós e nos convida ao incômodo que é viver. Alana Regina é dona de uma voz ao mesmo tempo delicada e forte e seu livro se posiciona em meio àqueles sobre os quais Virginia Woolf só podia sonhar existir: a voz lírica feminina ocupando um espaço que é seu por direito.


Cinthia Torres: Especialista, Mestre e Doutoranda em Estudos Literários; Autora do romance O Clube do Sábado.
Poesia Imperativa: Uma Resenha Poesia Imperativa: Uma Resenha Reviewed by Karol Póss on março 26, 2018 Rating: 5

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